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quinta-feira, 2 de março de 2017

O trono ou o futebol? Faça sua escolha.




Você abdicaria toda uma realeza  para tentar uma carreira futebolística? O atleta Peter Rufai teve essa coragem, o príncipe escutou o coração e optou pela alegria que o esporte poderia proporcionar. 

A grande Nigéria dos anos 90

Antes de entrarmos nos assuntos realeza e futebol, temos de entender o contexto no qual Rufai se encontrava. E tudo começa com a aparição relâmpago da seleção nigeriana dessa década. Com muita velocidade, força e com um futebol agressivo, as "Super Águias” ganharam bastante destaque nas machetes esportivas durante os anos 90. Boas participações nas Copas 1994 e 1998 fizeram com que os críticos futebolísticos abrissem os olhos mais uma vez para o continente africano. Não podemos esquecer do ouro nas Olimpíadas de 1996. Como não recordar daquela fatídica eliminação? Êh Kanu! O selecionado esbanjava alegria dentro e fora das quatro linhas. Os uniformes exóticos chamavam a atenção dos amantes do esporte e nomes como Okocha, Amokachi, Oliseh, Finidi George, Yekini, Kanu e até o "gato" Taribo West ficaram com mais evidência na boca do povo. Em meio a todos esses destaques, havia um membro da realeza que defendia as traves enquanto o futebol alegre se apresentava no campo de ataque. E é essa história que vamos conhecer.
 

Apresento-lhes, Peter Rufai, o príncipe 

Primeiramente, não se trata de ficção, é real. Filho do rei de Idimu, região tribal onde está localizada a capital Lagos, Rufai mostrava seriedade desde cedo, o que fez com que seu pai o escolhesse como o primeiro na linha de sucessão do trono. Vale lembrar que a Nigéria já era uma república, mas a tradição real permanecia extraoficial. 

Só que a vontade do príncipe era outra. Aos 24 anos, ele já tinha passagens por três times na África. Em 1987 se transferiu para o Lokeren, da Bélgica e passou a dividir a profissão com o término dos estudos. 

O momento crucial: pegue a coroa!

A carreira do goleiro na Europa foi correndo foi considerada regular, mas se tratando de goleiro africano, era excelente na época. Visto que há poucos arqueiros africanos no velho continente. Não chegava a ser nenhum fenômeno debaixo das traves, mas era confiável. Após quatro temporadas no Lokeren, acertou com o Beveren. Dois anos depois, chegou ao Go Ahead Eagles. Justamente nessa época, a seleção nigeriana começava a despontar como uma das forças do continente. Por lesão, Rufai não chegou a participar da campanha vitoriosa na Copa das Nações Africanas em 1994, mas foi escolhido como o capitão do time que jogaria o Mundial nos Estados Unidos. Na época, até diziam que a realeza o ajudava a mantê-lo como titular. Isso eu não sei, sinceramente, talvez fofoca da época.

Após o Mundial, Rufai desembarcou em Portugal, onde acabou se destacando pelo Farense em três temporadas. Ficou no país até 1997, quando chegou ao La Coruña, um dos grandes times da Espanha na época.

E foi nesse perído em que Rufai teve que fazer a escolha mais difícil. Em 1998, o goleiro recebeu a notícia da morte de seu pai. Ele teria o direito sucedê-lo. Mas para isso, teria de pendurar as chuteiras e luvas imediatamente. Rufai já tinha 35 anos. Pouco tempo e oportunidades no futebol à sua frente. Além disso, a pressão familiar para torná-lo rei era imensa, já que a essa altura o goleiro já era um ídolo local, muito pelos feitos em campo. A decisão o deixaria de fora do Mundial da França. Rufai já estava quase no fim de carreira, teria ele uma dúvida? Ou uma dívida familiar após a morte do pai? Não mesmo.

"Eu escolho a alegria"

A verdade é que a vida de uma realeza realmente não cativava o goleiro. Ele voltou à Nigéria apenas para comunicar sua decisão: Recusava o trono.

"Nunca quis ser rei. Se aceitasse não poderia ser jogador. Eu sei que teria uma vida boa, porque sei como viviam meus pais. Mas aquilo não era para mim. Não me fazia feliz. Eu queria era o futebol. Queria o gramado, queria a rua, queria estar com os amigos, queria ensinar crianças a jogar futebol. Isso era o que me dava alegria. Ser rei não me propiciava essa alegria. Por isso, abdiquei de tudo. Sabia que para jogar futebol tinha de abdicar de tudo. Para ser rei, precisava seguir determinadas regras e eu tinha de obedecer, claro. Por isso, não foi difícil dizer não - disse o ex-goleiro, em entrevista ao site português "Mais Futebol".

Aposentadoria e legado

Em 2000, Rufai se aposentou no Gil Vicente, de Portugal. Porém, o esporte em sua vida não acabara por aí. O ex-goleiro africano seguiu no ramo do futebol de maneira humilde e nobre. Rufai criou o Dodo Mayama Soccerthon, um programa de desenvolvimento de jovens atletas na Nigéria que treina garotos de 15 a 20 anos. Ele ajuda adolescentes nigerianos a ingressarem em equipes profissionais. Uma baita ajuda, mesmo sem a coroa de burocrata. 

“Depois de deixar de jogar, percebi que não queria deixar o futebol. Passei a dedicar a minha vida aos jovens. Conclui o curso de treinador no Reino Unido e fiz formação para trabalhar com jovens na Bélgica. A isso juntei a minha educação e a experiência. Trabalhamos como padrões europeus. Há muito talento na Nigéria”, afirmou.


"São apenas detalhes do futebol"

Referências: Globo.com , ESPN.Uol.com