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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Messi, autista ou um homem-cão?


Os adversários caem aos pés do talento puro e raro de Messi. O Barcelona rende-se ao encanto de "La Pulga" há anos. Desde jovem,  aquele garotinho franzino que precisou de tratamentos hormonais para desenvolver chamava a atenção dos espanhóis. Ele cresceu e 59 centímetros depois, encanta o mundo do futebol, com aquele jeito singular de conduzir a bola colada ao pé esquerdo. Não o compare, não se engane, ele é único. Melhor parar por aqui ou encherei o texto de adjetivos. Mas há alguma explicação? Existe motivo de não ter um precedente ou sucessor com essa singularidade? É o que vamos descobrir nas próximas linhas.
  

Messi foi o melhor em 2016

Tá certo que Cristiano  Ronaldo foi eleito pela quarta vez o melhor do mundo. O Craque português do Real Madrid superou o argentino e o francês Griezmann para fechar o ano perfeito de 2016. Mas há um porém.

Lionel Messi é o melhor jogador do planeta, aceitem. Me desculpem, Cristianetes. A discussão entre o argentino e Cristiano Ronaldo será eterna e até entendo quando os fãs do português se alteram. Os dois são os melhores jogadores do mundo nos últimos dez anos, mas os números provam que Messi tem uma estreita vantagem contra Cristiano, nas seleções e em clubes. Isso sem falar no dom do pequenino hermano. Em 2016, os dados provaram que o argentino jogou o suficiente para superar Cristiano Ronaldo, mesmo sem ganhar Champions e Copa América. Mas ele não saiu de mãos vazias no que diz respeito a títulos: foi campeão espanhol, da Copa do Rei e da Supercopa da Espanha. E fez o seu melhor torneio com a seleção, ainda que novamente a maior lembrança seja o pênalti desperdiçado na grande final.

Em números finais, Cristiano Ronaldo destacou-se em 19 jogos no ano (33% dos jogos que atuou), com 42 gols e quatro assistências. Pois a lista de Messi é maior. Foram 25 jogos em que se destacou (40%), com 45 gols e 14 assistências usando os mesmos parâmetros. 

Vamos falar do lado oculto de Messi

O hermano tem um comportamento fora das quatro linhas no mínimo diferente.
O argentino é visivelmente antissocial, quem acompanha futebol já percebeu, ou pelo menos já ouviu falar de atos nada convencionais do atleta. Há quem fala que o Barcelona o "protegeu" da premiação de cerimônia da FIFA ao saber que Messi não seria o vencedor. De acordo com nota oficial do clube catalão, a ausência aconteceu por conta da partida da Copa do Rei, contra o Athletic Bilbao. Então quer dizer que Messi não receberia o prêmio em mão caso ganhasse? Conte-me outra, Barcelona. A verdade é que Messi foi "poupado psicologicamente". O homem-cão não foi treinado para ser segundo colocado. Homem-cão, cachorro? O que é isso? Calma, a explicação fica por conta do jornalista e escritor Hernan Casciari. Ressalto que muito já se escreveu sobre Lionel Messi, enumerando seus feitos e exaltando sua arte. Mas poucos foram tão profundos na tentativa de decifrá-lo como Hernan.

"Messi é um cachorro, um homem-cão"

O jornalista argentino Hernan Casciari, que mora em Barcelona, utilizou a metáfora do animal para definir o craque. A crônica “Messi es un perro” (cachorro, em espanhol), se trata do melhor texto que já li a respeito do argentino. Saca só.

A escrita de Hernan Casciari do documentário Conexão Fut mostra que Messi é um cachorro, é isso mesmo, você leu corretamente. O texto nos faz ter outros olhos para esse talentosíssimo jogador. Vários vídeos de Messi fazendo o que nenhum jogador faria, mas o quê? Não são os gols, as melhores jogadas, as assistências. Pelo contrário, são centenas de imagens  que mostram que o argentino sofre faltas violentas, mas opta em não cair. Ele não se atira ao chão, não reclama, não tenta ser malandro para conseguir falta perigosa ou pênalti. Ele segue olhando para a bola e se esforçando ao máximo para se equilibrar. Todos tentam derrubá-lo, mas ele continua, com um objetivo, com um foco: o gol. O autor compara o seu cão a Messi. Ele também  cita que Messi não entende nada de oportunismo, e eu concordo, basta assistir  o vídeo para refrescar a memória. La Pulga parece hipnotizado. Ele faz o que ninguém faz. Qual seria a explicação? Ele conta que só Messi poderia deixar o mundo mais feliz. Exagero? Não para quem ama cachorro. Qualquer  ser humano que um dia tenha presenteado a família com um dog, qualquer um que tenha se relacionado de perto com um cachorro, será tocado por esta obra. Os meus três cães em Goiânia, de certa forma, "fazem o que Messi faz" e me convencem da tese de Casciari: Messi é mesmo um cachorro...

Outro olhar, o autismo? 

Nilton Vitulli, pai de um portador da síndrome de Asperger e membro atuante da ong Autismo e Realidade e da rede social Cidadão Saúde, que reúne pais e familiares de “aspergianos” tem outra versão.

Sobrinho de Jorge Amado e filho de um neuropediatra, Roberto Amado publicou em 2013 um artigo afirmando que Lionel Messi sofre de Síndrome de Asperger, e que este autismo leve foi diagnosticado quando o craque tinha 8 anos. Roberto Amado garante que “existem registros na Internet” sobre o assunto, mas deixa claro que decidiu “correr o risco” e publicar o artigo que movimenta até hoje as redes sociais.

“A Síndrome de Asperger não é comprovada com um exame de sangue ou uma tomografia. É uma análise feita por um terapeuta, com 300 genes envolvidos, baseado num questionário de 120 itens. É uma questão comportamental, que um profissional pode chegar a essa conclusão e outro dizer que não. Sou filho de neuropediatras, convivo a vida inteira com crianças autistas e tive a coragem de publicar o artigo”, explica Amado. “É especulativo e arriscado? Mas tem bases científicas e quem quiser que me copie e corra um risco secundário”, acrescenta ele, referindo-se sobre a dimensão tomada na web.

Jornalista, cineasta e escritor, Roberto Amado afirma que não teme ser processado pelo melhor jogador do mundo da atualidade, e que não deu simplesmente uma opinião: foi atrás de profissionais qualificados. Vale lembrar que Messi jamais declarou publicamente que tem a síndrome. Poderia ser uma maneira de protegê-lo? Sinceramente, eu não sei.

“A começar pelas entrevistas: é  visível o quanto aquele ambiente o incomoda. Aquele ar “perdido”, louco pra fugir dali. A coçadinha na cabeça, as mãos, o olhar que nunca olha de fato. Um autista tem dificuldade em lidar com esse bombardeio de informações do mundo externo”, diz 

Também fora de campo, seu comportamento é revelador. Quem já não reparou nas dificuldades de comunicação do jogador, denunciadas em entrevistas coletivas. Ele compara o comportamento de Messi a um célebre surfista havaiano, Clay Marzo, também diagnosticado com a síndrome de Asperger. “É um surfista extraordinário. E é possível perceber características de autista quando ele está numa onda. Assim, como o Messi, ele é perfeito, como se ele soubesse exatamente o comportamento da onda e apenas repetisse um padrão”. Mas autistas, segundo Vitulli, não são criativos, apenas repetem o que sabem fazer. “Cristiano Ronaldo e Neymar criam muito mais. Mas também erram mais”, diz ele.

Roberto Amado publicou em seu site, o Poucas Palavras, um longo texto dizendo que o craque argentino Lionel Messi foi diagnosticado aos oito anos de idade com Síndrome de Asperger, uma forma branda de autismo que se caracteriza, entre outros sintomas, pela grande capacidade intelectual de seus portadores.

Apesar das prováveis boas intenções, como a de mostrar que os autistas são capazes de feitos extraordinários, Amado estava errado. Quem o contradiz é Diego Schwarzstein, médico que tratou do principal e conhecido problema de saúde de Messi: uma deficiência hormonal que atrasou seu desenvolvimento.
Procurado pela reportagem do UOL Esporte, Schwarzstein, que ainda vive em Rosario e é a pessoa mais qualificada para falar sobre o assunto, não deu margem a dúvidas. "Leo nunca foi diagnosticado como Asperger ou qualquer outra forma de autismo. Isso é realmente uma bobagem", afirmou, por e-mail.

Em seu texto, Amado listou uma série de características que supostamente serviriam para provar o autismo de Messi: o modo de chutar ao gol e o uso de dribles parecidos seriam indícios de padrões repetidos, típicos dos portadores da síndrome. Sua timidez no trato com a imprensa seria outro sinal.
No mesmo artigo, ao destacar os feitos impressionantes dos quais os autistas são capazes, Amado citou o caso retratado no filme Rain Main, de 1988, com Tom Cruise e Dustin Hoffman. Na verdade, trata-se de outra síndrome, a de savant, no qual o portador tem uma grande facilidade em uma área intelectual, como realizar cálculos complexos, por exemplo, mas possui um QI baixo - algo bem diferente do Asperger.
O texto de Amado, por trazer depoimentos de pessoas ligadas a entidades de portadores de Síndrome de Asperger corroborando sua tese, foi pouco questionado e acabou se alastrando pela internet. Até o ex-jogador Romário chegou a escrever a respeito em sua conta de Twitter: "Vocês sabiam que o Messi tem Síndrome de Asperger? É uma forma leve de autismo, que deu a ele o dom do foco e concentração acima de tudo e de todos." Alguns sites chegaram a noticiar que, depois do comentário de Romário, Jorge Horacio Messi, pai do craque argentino, teria ameaçado processar o baixinho brasileiro.

Apesar do nome diferente, a Síndrome de Asperger é uma das formas de autismo, porém mais branda. Enquanto até 70% dos autistas possuem graus diferentes de deficiência intelectual, os portadores de Asperger são caracterizados pela capacidade intelectual normal ou acima da média e por não apresentarem dificuldades de fala.

O psiquiatra Estevão Vadasz, coordenador do Programa de Transtornos do Espectro Autista do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da USP (PROTEA), uma das maiores autoridades do Brasil no assunto, explica que a área de excelência do portador da Síndrome de Asperger costuma ser matemática, física e outros campos de exatas.

"Outro fator que vai contra a ideia de que Messi é portador de Asperger é a coordenação motora", afirma Vadasz. "Na maior parte dos casos, os portadores têm baixa motricidade e não se dão bem em atividades em equipe. O Messi, ao contrário, tem um domínio motor sofisticado, e joga muito bem em equipe."

Para defender a tese de que Messi possui Asperger, Nilton cita até mesmo Cristiano Ronaldo e Neymar e suas formas comportamentais dentro de campo. “No caso do Messi, notei que ele não olha para a bola. Ele fica prestando atenção no movimento dos adversário, sabe exatamente o que acontece com a perna da pessoa. Ele passa como se estivesse passando por cones, é uma coisa muito louca. Eu sempre disse que acho o Cristiano Ronaldo um jogador muito mais completo e o Neymar também, mas eles não têm essa eficiência. Eles erram mais. Já com o Messi, como acho que ele sabe o que os adversários vão fazer, ele faz movimentos para prever isso”, disse.

“Se ele realmente for (Asperger), é por conta das caracteristicas do repete e grava, repete e grava, até um ponto que ele não tem mais dúvida do que vai acontecer. O mais complicado de tudo isso é que nem para o Asperger e nem para o Autismo exista um exame que os detecte. São avaliações ligadas ao comportamento. Você não consegue fazer um exame. Se fizer, não vai aparecer no exame que ele tem esse tipo de coisa. Então você imagina o seguinte, como é muito sutil, só uma pessoa com muita experiência conseguiria dizer se é verdade ou não que o Messi tem. Não tem como provar. O Rafa, meu filho, tem um laudo do psiquiatra, que assina que ele tem o Asperger e eu não tenho dúvida que ele tem. Isso tudo baseado em corportamento”, completou.

Por fim, Nilton Vitullo torce para que, caso Messi seja realmente portador da síndrome de Asperger, o caso seja revelado publicamente e que o melhor jogador de futebol do mundo na atualidade ajude na causa.
“Ele é referência. O transtorno do autismo tem um nível de comprometimento muito forte. Por exemplo, constando o Messi com Asperger, parece uma coisa boa, mas não é. Então, eu já acho muito importante ter pessoas, como ele, que tenha Asperger. É uma referência muito positiva. É alguém que, se bem trabalhado, consegue chegar onde ele chegou. Então, por exemplo, como eles têm essa capacidade de desenvolvimento intelectual absurda, acho que ter referências como o Messi, se ele realmente for, é sempre positivo. Eles precisam muito disso, pois a autoestima deles é muito baixa e a dos pais, baixíssima. A situação dos pais, de quem tem, é horrível. No caso do Rafa, como descobrimos isso muito tarde, nós tratavamos ele como uma criança normal. A gente sempre tentou sociabilizar o Rafa o máximo possível e isso ajudou muito. O grande problema é esse, você pode ver que o Messi é um cara muito antissocial. E nem sei como ele consegue receber todos aqueles prêmios. Ele recebe e nem agradece”, finalizou.

"São apenas detalhes do futebol"


Fontes: Exame.com, ESPN.UOL, Globo.com, Vírgula.UOL, Extra.Globo, VivênciasAutisticas.blogspot.com. Texto opinativo de Victor Canedo(GE)

Assista ao vídeo do Canal Conexão Fut: