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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Chapecoense, além do futebol





Quase um mês desde a catástrofe na Colômbia, a ficha ainda está caindo, mas aos poucos percebo que o pesadelo foi real. A vida é um sopro, não é mesmo? Sonhos foram destruídos, encontros foram interrompidos e só restará a saudade de cada um que se foi. Não importa se você acompanha ou não o futebol, o que aconteceu foi devastador, foi como perder alguém da família. Não hesito em dizer que essa fatalidade me chocou muito mais do que qualquer outra. Talvez quem acompanhe esse esporte diariamente tenha sentido como eu essa dor que consome. Um buraco foi aberto e a ferida não me parece cicatrizada. Acredito que no mínimo devemos ter compaixão pelo sofrimento do próximo. Vejo por essa perspectiva, mas não julgo o sentimento de cada um em meio a essa tragédia.  O certo é que a família do futebol brasileiro ainda está de luto.


A trajetória ...O sonho interrompido

 
Fundado em 1973 a partir da união de antigos clubes da cidade de Chapecó, em Santa Catarina, o clube conquistou o primeiro campeonato catarinense em 1977. Foi campeão estadual em 1996, 2007, 2011 e 2016. Há três temporadas na elite do futebol brasileiro, a Chapecoense veio para 2016 sonhando mais alto. Poucos times de futebol de pequena estrutura viveram uma ascensão tão rápida como a da Chapecoense nesta década. Me lembro também do São Caetano, no começo de 2000. Em 2009, o clube ainda disputava a série D, última divisão do futebol nacional. Sete anos depois, a equipe estava prestes a disputar sua primeira final de uma competição internacional. O acidente frustou o momento mais brilhante da trajetória do clube. Fica a pergunta, a chape terá forças pra se reerguer? Tomara que sim. 


A Chapecoense não foi a primeira vítima

 
Houve várias perdas em acidentes aéreos. Devastações de clubes como Manchester United, Torino, Alianza de Lima e as seleções de Zâmbia e Dinamarca foram algumas das mais chocantes. O Manchester United que encantava o mundo nos anos 1950 foi devastado pelo acidente aéreo de 6 de fevereiro de 1958 devido a uma tempestade de neve. Houve 23 mortos na delegação, entre eles oito jogadores, como o craque do English Team Duncan Edwards. Mas houve sete sobreviventes, entre eles o maior jogador da história do futebol inglês, Sir Bobby Charlton, que oito anos depois ajudaria o English Team a conquistar sua única Copa do Mundo. 
Um pouco antes, em 1949, o brilhante time do Torino, tetracampeão italiano teve seu avião destruído por causa de um forte nevoeiro. Todos os 42 integrantes morreram na hora, incluindo  o elenco da equipe italiana. A tragédia abalou o país. O Torino era o maior time da época, chamado de Grande Torino. Cerca de 500 mil pessoas acompanharam os funerais. O time partia para o quinto scudetto consecutivo e teve de recorrer a juvenis para disputar o campeonato até o fim. O detalhe é que os outros clubes, em solidariedade, fizeram o mesmo, e com isso o pentacampeonato foi conquistado. De lá pra cá, o Torino nunca mais foi o mesmo. A perda foi bastante sentida. A seleção italiana que disputaria a Copa de 1950, no Brasil, também sofreu duro golpe ao perder seus principais jogadores e sequer passou da primeira fase. Traumatizada com a tragédia, veio para a Copa no Brasil de navio. 
Já o desastre aéreo envolvendo o  Alianza Lima, do Peru, foi o primeiro na América do Sul. Na ocasião, o time era o líder do Campeonato Peruano. O avião caiu no mar e todos os jogadores do elenco e a comissão técnica morreram na hora, além de oito líderes de torcida, do árbitro Miguel Piña e dois oficiais da Marinha. Apenas o piloto Edilberto Villar Molina sobreviveu. O clube foi obrigado a recrutar jogadores da base e aposentados como o craque Teófilo Cubillas. Mas acabou perdendo o campeonato.


O texto que não precisava ser escrito.


No meu caso, estava prestes a entrar na academia, em San Leandro, na Califórnia, quando um amigo próximo enviou-me alguns prints de tweets de veículos de comunicação colombianos informando o acidente. Pensei: deve ser mais uma pegadinha sem graça que viralizou na internet, ou apenas um voo forçado, um susto, quem me dera, era bem pior. Ao chegar em casa, fui colher as informações e aos poucos o quebra-cabeça estava quase montado.  Não queria acreditar, a cabeça estava a "mil", não consegui dormir bem, para ser mais exato, menos de duas horas. Ao acordar, deparei com a verdade, a maior tragédia do futebol brasileiro estava em foco. Desde a morte do zagueiro Serginho, do São Caetano, em 2004, não me sentia tão triste com temas que envolvem o futebol. Confesso, fiquei chocado com essa fatalidade. Não queria acreditar. Nunca imaginei que ficaria assim por pessoas tão distantes de mim. Talvez porque elas estavam mais próximas do que eu poderia imaginar. Afinal, eu vivo o futebol e ele faz parte da minha vida. Impossível não se emocionar, ao pensar na dor dos parentes e amigos mais próximos dos envolvidos na tragédia. O que dizer da atitude da Dona Alaíde, mãe do goleiro Danilo ao ser questionada pelo repórter do Sportv, do vídeo do Thiaguinho ao descobrir que seria pai, do minuto de silêncio na final da Copa do Brasil, de cada torcida e oração pela recuperação dos sobreviventes, isso comove qualquer coração.
Ao todo, 71 mortos, entre jogadores, comissão técnica, tripulantes e jornalistas. Sem dúvida, este é um texto que ninguém quer escrever. Porém necessário, é também momento de reflexão. O blog Detalhes do Futebol tem a finalidade de falar desse esporte, mas hoje abriremos o espaço para falar de nós: os seres humanos. 


O jornalismo

 
De comentaristas veteranos da Fox e Globo, a jovens locutores de Chapecó, vinte jornalistas brasileiros que acompanhavam a Chapecoense na Colômbia estavam entre os mais de 70 mortos na queda do avião em Medellín. Rafael Henzel Valmorbida, narrador de 43 anos da pequena rádio Oeste Capital, de Chapecó, é o único repórter que sobreviveu à queda do avião. Muitos talentos que firmaram seus nomes na história do jornalismo esportivo e outros que estavam em início de carreira tiveram o sonho arruinado.


Precisamos falar de emoção...


Os comunicadores quase sempre não choram, ou são os últimos a emocionarem em grandes desgraças. Como assim, eles não têm sentimentos? Creio que sim, nós temos. Normalmente, a emoção vem quando estamos sozinhos, no banheiro, no quarto, depois do expediente. Muitos consideram os jornalistas insensíveis à frente do grande público. Não é por aí. O sentimento é imperceptível na maioria das vezes. Na faculdade de jornalismo aprendemos a fazer "cara de paisagem" para manter a  imparcialidade e a frieza jornalística. Afinal, o telespectador, leitor, ouvinte querem a informação de forma clara e sem ruído. O professor adverte: "Não se emocione". Desculpe mestre, vou desobedecê-lo, dessa vez não será possível. Informações e futebol ficam para o segundo plano.


Sinal de alerta e a valorização do que realmente importa


Alê Oliveira, comentarista dos canais ESPN, deixou uma mensagem muito reflexiva no programa "Bate-Bola", um dia após o acidente. Na oportunidade, ele solidariza as pessoas envolvidas e passa uma energia positiva para todo o Brasil. O comunicador também deixa um recado importante para os telespectadores. Alê fala para atentarmos às pequenas coisas, aos familiares, dar valor no que realmente importa enquanto há tempo. De falar eu te amo para quem você ama. "Tem tanta coisa sem importância que a gente acaba dando valor. E as mais importantes a gente deixa passar". A verdade é que quando menos se espera, a vida já ficou pra trás. E nunca saberemos quando será nosso último vôo em busca da felicidade, Alê. Ana Vilela já dizia: "A vida é trem-bala, parceiro. E a gente é só passageiro prestes a partir".


Precisamos ser mais Chapecoense


Nos dias seguintes após o acidente, um texto que viralizou na internet chamou minha a atenção. A obra de Artur Crispim nos remete à reflexão, algo que esse acidente causou em boa parte das pessoas. O texto faz uma relação do futebol com a vida de forma intrigante. Vale a pena ler mais de uma vez:
"Costumo dizer que futebol é metáfora da vida e talvez por isso esse lance com a Chapecoense me deixa tão triste. Porque, por mais que torçamos pra Flamengo, Corinthians, Vasco, Palmeiras, Santos e outros grandes times, na vida, a gente é mesmo uma Chapecoense. A gente sonha, luta, batalha, joga fechadinho na defesa, aguenta pressão no trabalho, salva bola em cima da linha no último minuto e quer ser campeão de algo, vibrar com a felicidade, alçar vôos altos. A gente é Chapecoense na vida porque, por mais que algumas vezes queira e em outras se sinta impotente, está lá, sempre na peleja. Nem sempre com torcida a favor, às vezes com o estádio da vida lotado, tentando virar o jogo fora de casa, mas estamos lá, buscando nossa realização, nosso conto de fadas. A gente adotou a Chapecoense porque ela é gente da gente. Com essa queda, a gente vê como se importa com bobagem, como perde energia com coisas pequenas, inclusive por aqui. Como a gente se demora em questões que não geram amor. "Donde no puedas amar, no te demores". Já que vamos seguir na vida, é preciso ser mais Chapecoense. Se encontrar mais, sorrir mais, discordar quando for necessário, mas se respeitar mais. Cultivar os afetos, deixar os desafetos pra lá, nos livrar das âncoras e seguir com as velas. É preciso seguir, é preciso soprar. Vamo, vamo, Chape. Na metáfora dessa vida, jogo de futebol eterno, Chape somos nós."


Solidariedade mundial 


Em meio a tanta tristeza, a tragédia da Chapecoense pelo menos serviu para unir as pessoas. Nos quatro cantos do mundomuitas homenagens e mensagens de solidariedade e apoio às vítimas do acidente aéreo foram feitas.
O que podemos dizer da atitude do povo colombiano? Umas das coisas mais lindas que presenciei no esporte. "Gracias, Colombia". O Atlético Nacional, aquele mesmo time do traficante Escobar de anos atrás, cedendo o título ao clube do interior de Santa Catarina. Até Conmebol aceitando a decisão, que surpresa. Times de todo lugar do mundo declarando apoio com músicas, bandeiras, faixas... Equipes atuando com escudos da Chapecoense. Clubes tradicionais usando a cor verde. Monumentos ao redor do mundo com as luzes esverdeadas. Torcidas Organizadas de todos os clubes prestando solidariedade à Chapecoense e fazendo acordo de paz. Os principais clubes brasileiros garantindo que irão ceder jogadores à Chapecoense. O Libertad, do Paraguai, colocou todos os seus titulares à disposição para ajudar o time de Chapecó. A hashtag #ForçaChape foi a mais compartilhada no mundo. Plano de Sócios da Chapecoense teve crescimento surpreendente nos últimos dias. Puyol optou por não ver Barcelona e Real Madrid para estar no velório em Chapecó. EA Sports liberando o escudo e o uniforme da Chape no jogo "Fifa 17"  para os amantes do vídeo game. A Konami também não ficou de fora da corrente do bem e garantiu que ajudará o clube e familiares dos jogadores da Chape. Além dessas homenagens, outras muitas foram feitas. Em momentos como esses que percebemos que existe um lado muito bom em cada ser humano. Mobilizações como essas não nos deixam perder a esperança no próximo. A jornalista Fernanda Gentil escreveu em sua página do Facebook que nos resta tirar uma lição muito importante dessa tragédia. "Falar enquanto há tempo, falar em vida. Abraçar em vida. Amar em vida. Perdoar em vida. Porque tudo isso é viver a vida". Fernanda também sugere que não deixemos esse sentimento se perder com o tempo. Ele deve durar para sempre. Concordo com a jornalista, acredito que essa é nossa missão: fazer mais pelo próximo e procurar evoluir como pessoa.


Isso é futebol!


O mundo mostrou que esse esporte nos une, nos faz torcer, gritar e até chorar. Não são apenas 22 atletas correndo atrás de uma bola. No dia 30 de novembro, ao ver as manifestações do público brasileiro e colombiano envolvidos na final, dentro e fora dos estádios, no horário da partida, percebi o verdadeiro significado desse esporte: o futebol não é apenas um jogo.
Fica aqui o registro de solidariedade do Blog Detalhes do Futebol a todos de Chapecó, ao clube, às famílias envolvidas, sobreviventes e amantes do futebol. Descansem em paz.



"São apenas detalhes do futebol"


Com informações: Globo.comESPN.comR7.comIG.com, Istoé, Época, Site oficial da Chapecoense, Conmebol, Instagram: Doentes por futebol, EDFL, Fanáticos por futebol.