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terça-feira, 1 de março de 2016

Pablo Escobar e o futebol


“Narcos”, do Netflix, tem sido um sucesso em todo o mundo, inclusive no Brasil. O famoso traficante de drogas colombiano Pablo Escobar nunca foi tão comentado em nosso país. Afinal, estamos falando de uma das figuras mais importante da história da Colômbia. Nos anos 1980, ele comandou 80% do comércio mundial de cocaína e até apareceu na lista de bilionários da revista “Forbes”, em 1987. O blog ‘Detalhes do Futebol’ vai antecipar o seriado e revelar a relação que ‘El Patron’ tinha com o esporte.


Reerguer uma atividade esportiva não é fácil, ainda mais em um país que sofria com tantos problemas sociais e guerra civil promovida pelas FARC. A Colômbia nos anos 1960, era uma das nações hispânicas mais populosas do mundo, mas era incapaz de investir em infra-estrutura do esporte, o lucro financeiro no futebol era muito baixo. As equipes eram quase todas semi-profissionais. Ganhar algum título internacional? Quase impossível. Como os clubes sairiam desse atraso futebolístico? Um empurrãozinho era necessário. Uma ‘droga’ poderia ser a solução. Calma, eu explico.

A cocaína iniciou os anos dourados na Colômbia

A maioria dos líderes de cartéis vinha de zonas pobres, onde o futebol era um dos poucos luxos, o lazer era fundamental. Os cartéis tomavam conta de quase tudo na Colômbia e precisavam lavar dinheiro para que o esquema fluísse melhor. Unir o útil ao agradável era o ditado da vez na região. Podemos afirmar que a cocaína definiu o apogeu do futebol colombiano. Por quê? Vamos por parte.

O momento era favorável. Os cartéis aproveitaram esse período baixo do futebol colombiano para comprar clubes a preços irrisórios e dedicaram-se a lavar dinheiro através das instituições legítimas enquanto perfilavam a honesta ambição de levar o futebol colombiano ao patamar dos gigantes do continente. Os anos 80 significaram o renascimento do futebol dessa nação: do pó branco aos títulos. O atraso estava ficando para trás. .

Escobar, o pai do futebol

Don Pablito era apaixonado por futebol, e segundo os jornalistas e a polícia colombiana, o senhor das drogas era dono dos dois dos maiores clubes do país: Independiente de Medellin e o Atlético Nacional de Medellin.  ‘El Patron’ construiu milhares de casas e diversos campinhos de várzea, de onde surgiram grandes talentos. Ele chegou a ser considerado uma espécie de “Robin Hood”, da Colômbia. Porém, as fontes afirmam até hoje que subornos, coações de árbitros e até de jogadores eram comuns na época. O filho de Escobar garante que todas essas histórias são lendas criadas em torno da figura do pai. “Nada disso é verdade. Já ouvi muito essas histórias. Meu pai não interviria no esporte dessa maneira, a esse extremo. Não utilizava sua violência para isso. É claro que ele foi responsável por centenas, milhares de assassinatos”, indaga Juan Pablo Escobar.

O ápice do sucesso com o investimento do cartel de Pablo Escobar aconteceu em 1989, quando o Atlético Nacional, comandado pelo jovem Maturana, conquistaria a Libertadores. Sabe quem mandou contratar esse técnico? Ele mesmo, ‘El Patron’. Havia comentários de que a equipe era patrocinada pelo patrão, mas nunca puderam comprovar. Nunca foi provada a ajuda dele. Segue a Dúvida.

Dinheiro ou chumbo

A ‘dócil política’ "plata o plomo" faria efeito. Vamos aos fatos. A campanha da conquista da Libertadores teve seu auge na goleada de 6 a 0 sobre o Danúbio, do Uruguai, nas semifinais. Em uma ironia espetacular, o placar suspeito ‘salvou’ as vidas do trio de arbitragem. Anos depois, o assistente argentino Juan Bava revelou à imprensa de seu país que Escobar tentou comprar os árbitros por bem ou por mal. Em Medellín, eles foram interceptados por homens armados que ofereceram duas opções: ou aceitavam dinheiro para evitar qualquer problema contra o Atlético em campo ou não voltariam vivos para a Argentina. Bava declarou em tom de brincadeira que, se o jogo estivesse empatado por 0 a 0 nos minutos finais, ele mesmo faria um gol para o Nacional.

O título é questionado por torcidas de clubes adversários até os dias de hoje. É comum ouvir em partidas do Nacional como visitante uma música chamada "Pablito te la compro", uma insinuação de que a competição foi comprada por Escobar e o Atlético conseguiu ganhar títulos apenas por causa da interferência do "Patrão". A provocação é contraditória. Os principais rivais também foram patrocinados por narcotraficantes - alguns com interferência maior, como o América de Cali.

Os outros rivais

Os irmãos Rodríguez Orejuela, chefões do cartel de Cali e arquirrivais de Pablo, fizeram do América a principal potência futebolística do país, o que irritava muito “El Patron”. A equipe jogou a final da Libertadores três vezes entre 1985 e 1987 e ganhou o Campeonato Colombiano em cinco oportunidades consecutivas no período de 1982 a 1986. Conquistas inimagináveis para um time colombiano.

A disputa por poder entre os dois cartéis culminou com uma tragédia no fim de 1989. Em outubro daquele ano, o Independiente enfrentou o América em Cali. O assistente Álvaro Ortega anulou no fim do duelo um gol da equipe visitante, que perdeu por 2 a 1. A decisão deixou Escobar irado. Em novembro, o jogo de volta foi realizado em Medellín, Ortega foi escalado novamente e, mesmo consciente do perigo, viajou para a cidade. A partida foi encerrada com empate sem gols. Na mesma noite, quando se dirigia para um restaurante, o árbitro foi morto a tiros. O autor do crime não foi identificado, mas, décadas depois do incidente, um capanga conhecido como Popeye confirmou em um documentário que a ordem foi dada pelo "Patrão".

O assassinato de Ortega fez a federação local, pressionada pela Fifa e pela Conmebol, suspender o Campeonato Colombiano. Não houve campeão, mas dos seis times que tinham chances de título, quatro contavam com o apoio de chefões de cartéis de drogas. Anos antes, a Fifa decidiu não fazer a Copa do Mundo na Colômbia por todos os motivos citados no texto.

Mais investimentos

Segundo alguns jornalistas locais, Escobar financiou do seu próprio bolso, a preparação da seleção colombiana para o Mundial de 1990, na Itália. Em seguida, Escobar ordenou Maturana a ser o treinador da seleção nacional para a disputa da Copa do Mundo. O treinador conseguiu fazer uma razoável campanha na competição internacional, sendo eliminada por Camarões nas oitavas-de-final. Anos depois, os colombianos surpreenderam a Argentina pelas eliminatórias da Copa dos Estados Unidos, comentada até hoje, 5 a 0 em Buenos Aires e conseguiram a classificação para mais um Mundial. A Colômbia se tornou a responsável pela maior derrota da história dos Hermanos em sua própria casa em jogos internacionais

O início do fim e a morte de dois Escobares

Em 1993, o império chegaria ao fim depois da emboscada da polícia colombiana na tentativa de capturar Pablo Escobar. ‘El Patron”acabaria morto, e o Cartel de Medellín dissociado. Após a morte de  Pablito, o tráfico de drogas perdeu força e os investimentos no esporte caíram. As grandes estrelas se voltaram para a Europa e o futebol colombiano viveu um período sem glórias nos anos 90 apesar do sucesso da seleção, usada pelo governo para tentar limpar a imagem do país e diminuir a relação com a violência.

Os traficantes remanescentes apostariam suas fichas na seleção em 1994, e se decepcionariam. Os Cafeteros eram um dos favoritos ao título, o próprio rei do futebol, Pelé, apostava neles, porém, foram eliminados logo na fase de grupos, e a culpa cairia sobre os ombros de Andrés Escobar, zagueiro, capitão da Colômbia e ídolo do Atlético Nacional.

O defensor marcou um gol contra diante dos Estados Unidos que decretaria a eliminação e, um mês depois, já na Colômbia, seria assassinado por causa desta falha. Isso foi a gota d’água para uma intervenção da Fifa junto às autoridades.

A nova safra e a vida nova do futebol colombiano

Hoje, a Federação Colombiana trabalha para limpar a imagem deixada pelos cartéis. Eles perderam força, agora quem comanda o tráfico são as FARC, que não demonstram se importar muito com o futebol.

O Atlético Nacional é um dos principais clubes da Colômbia no momento. Já chegou à decisão da Sul-Americana em 2014 e vem marcando presença na Libertadores. Outra equipe que vem chamando a atenção é o Independiente de Santa Fé. A seleção nacional é forte e conta com  o artilheiro Falcão, Bacca,  Cuadrado, James Rodríguez , Ospina, Guarin e outros jogadores com destaque no futebol mundial.

Se você quiser saber mais da história de Pablo Escobar, e sua relação com o futebol, a plataforma de streaming Netflix está exibindo a série Narcos, que conta um pouco da vida do do narcotraficante, representado pelo ator brasileiro Wagner Moura e ainda conta com a direção de José Padilha. Outro seriado é Pablo Escobar – El patrón del mal, disponível também no Netflix. Recomendo também outros documentários sobre a vida de Escobar: ¿Quién mato a Pablo Escobar?, Pablo Escobar, o rei da cocaína e  The TWO Escobars da ESPN Filmes.


“São apenas detalhes do futebol”

Fontes e referências:

Globo.com
ESPN.com.br
Gazeta Colombiana
Futebol Magazine
Folha.uol
Estadão.com