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terça-feira, 3 de novembro de 2015

Barbosa, o injustiçado



Quando penso em futebol, penso em goleiro, na posição que pode ser idolatrada ou humilhada. A linha é tênue, o erro não é aceitável, a responsabilidade está em suas mãos e caso falhe, poderá ser lembrado eternamente pelo deslize. E é com esse peso que irei contar os detalhes do futebol do atleta mais injustiçado da história desse esporte.


Copa do Mundo do Brasil

O ano era 1950, data do evento mais importante para o país. Pela primeira vez, a Copa do Mundo estava em território nacional. A época era outra, o Brasil tinha pouca ou nenhuma tradição no futebol. Mas o início de competição era formidável, quase perfeito. A defesa tupiniquim era impecável. Líder do grupo na primeira fase, e em seguida, goleadas contra Espanha e Suécia na fase final da competição. Esses resultados criaram um favoritismo ao time da casa. O Brasil pegara o Uruguai na grande final e um empate bastava para a seleção naquele último jogo do quadrangular final. O título era dado como certo. Políticos já tinham preparado os discursos após a coroação. A festa estava pronta. É campeão...

O começo foi equilibrado, mas o andamento da partida já amedrontava. O jogo estava empatado e o fim se aproximava, até o atacante uruguaio Ghiggia disparar um chute cruzado, aos 34 minutos do segundo tempo, e fazer 2 a 1. O goleiro Barbosa não conseguiu fazer a defesa. A Celeste tinha alcançado o que muitos acreditavam ser impossível. O Brasil não teve forças para empatar. As 200 mil vozes foram caladas em pleno Maracanã. Lágrimas e sofrimento tomavam conta da arquibancada lotada. Nunca se viu um estádio tão triste. Quem seria o culpado?

Crucificando

Em reportagem de O Estado de S. Paulo, de 18 de julho de 1950, Barbosa é sentenciado. "Duas bolas perfeitamente defensáveis foram às redes brasileiras", relata o texto. Barbosa não concordava que culpassem o lateral-esquerdo pelo lance, ele queria absorver toda a responsabilidade. "Se houve um culpado fui eu", assumia. O goleiro costumava dizer que jamais alguém no Brasil recebera uma pena tão longa quanto a sua.

O guarda metas brasileiro passou a vida falando do fatídico segundo gol uruguaio. "A pena máxima para um crime no Brasil é de 30 anos. Eu pago por aquele gol há 50", lamentava o arqueiro. Em entrevistas futuras, Barbosa confessou que ficou perdido  após o apito final. "Depois daquela derrota fomos levados para fora do estádio e nem sei onde fui parar. Durante uma semana andei abobalhado por aí. Só lastimo que não tenham respeitado minha dor", conta o goleiro.

Quem vivenciou essas lágrimas de perto foi a filha adotiva de Barbosa e única familiar viva, Tereza Borba. "Prometeram mundos e fundos para a seleção de 50. Quando perdeu, não ganhou nada. Meu pai foi crucificado. Não ganhou dinheiro, foi jogado na fogueira".

Anos depois da tragédia no Maracanã, aconteceu outro episódio marcante na vida do goleiro. Uma senhora e uma criança encontraram Barbosa em um supermercado, e a mulher apontou para o arqueiro e disse ao filho: “Esse é o homem que fez o Brasil chorar”, afirma.

Barbosa era considerado o melhor atleta da posição no Brasil e talvez no mundo, um goleiro diferenciado, revolucionário, sinônimo de segurança, tinha o melhor tiro de meta dos anos 40, assim diziam os jornalistas da época. Fez milagres em partidas pelo clube Vasco da Gama e pela Seleção Brasileira. Era bastante respeitado pelos adversários. E até o próprio carrasco Ghiggia o elogiou em várias oportunidades. Barbosa foi seis vezes campeão carioca defendendo o Vasco da Gama, conquistou a Copa América em 1949 pela seleção e a Copa Roca.

Praia Grande, o refúgio no interior de São Paulo

Segundo Tereza Borba, a cobrança na capital carioca era insuportável. "Tinha hora em que deitava no travesseiro pensando muito na final, porque pegaram muito pesado", relata. "Por isso, a Praia Grande foi o paraíso para ele. Tanto que escolheu ser enterrado aqui, na mesma ala da Clotilde, sua esposa", completou.

Enredo de filme

Com o passar dos anos, a cada reencontro entre Brasil e Uruguai, a história do "Maracanazzo" era retomada. Filmes foram produzidos e livros escritos em torno do fato. No curta-metragem "Barbosa", o personagem interpretado por Antonio Fagundes volta no tempo para tentar alertar o goleiro sobre o desfecho para o chute de Ghiggia, tamanho trauma que aquela derrota causara na vida dele.

Surpresa desagradável

Em 1993, aos 72 anos, Barbosa passou pelo constrangimento de ser barrado na concentração da seleção brasileira, na Granja Comary. O Brasil enfrentaria o Uruguai, no Maracanã, em jogo decisivo das Eliminatórias para a Copa de 1994. Aquele mesmo em que o baixinho Romário decidiu a partida com dois gols e levou a seleção a Copa dos Estados Unidos, na qual se consagraria tetracampeão.

A fim de evitar qualquer relação com o fracasso de 1950, a comissão técnica na época, comandada por Carlos Alberto Parreira, impediu que Barbosa conversasse com o goleiro Taffarel. Barbosa aceitou e retirou-se calado."Falaram que eu podia transmitir uma imagem negativa", declarou na ocasião. "Não sou pé-frio, só queria passar otimismo aos jogadores."

A morte em silêncio

No ano 2000, o "Maracanazzo" era notícia novamente nos noticiários. Afinal, era o ano em que o mais traumático revés da seleção brasileira completaria meio século. Mas o vilão nacional não mais seria entrevistado. Três meses antes do cinquentenário,em abril, Barbosa morreu, aos 79 anos, sendo sempre lembrado pela falha de 1950.

Desabafo da filha

Tereza Borba colocou pra fora o que sentia pela injustiça com o pai após vexatória goleada sofrida pela Seleção Brasileira para a Alemanha por 7 a 1, no Mineirão e o fracasso da equipe de Felipão. Ao conversar com a equipe de reportagem da UOL, ela desabafou. "Ele deve estar feliz agora", aliviou. Mesmo com o desabafo, a filha do histórico goleiro disse que ambos queriam ver uma vitória em casa da seleção. "Penso que ele está triste onde está. Ele era um ser humano muito bom. Um homem incrível. E com certeza hoje ele estaria muito triste pelos meninos que perderam. Estava sempre sorrindo. Seria o primeiro torcedor a gritar fervorosamente para que o time ganhasse. Ele era um homem muito, mas muito bom", contou. Ela também fez questão de defender o goleiro Júlio César. "Ele não teve culpa. Adoro ele como profissional. Já chega o que foi feito com o Barbosa. Não quero que ninguém sinta o que meu pai sentiu", pediu Tereza aos repórteres do UOL.

O perdão tardio

No Rio de Janeiro, o vereador, Rogério Cardoso, hoje falecido, pagou a viagem do ex-goleiro para a capital carioca, onde lhe foi entregue o título de cidadão honorário do município fluminense. O político aproveitou a ocasião e ajoelhou-se, emocionado, implorando pelo perdão em nome de todos os brasileiros.
Na homenagem preparada por Rogério Cardoso, Barbosa ainda teve o direito de escolher quem estaria presente. "O Barbosa começou a ter bons momentos. Ele me falava: ‘Nunca pensei que fosse conseguir viver assim’. Depois de tudo o que passou, teve qualidade de vida e foi feliz. O sorriso dele voltou, e não só nos lábios, mas nos olhos", completou Tereza.

Tereza e seu pai podem ficar mais tranquilos depois do fatídico 7 a 1 para a Alemanha. O cronista Armando Nogueira, já falecido, já dizia: "Certamente, Barbosa foi a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. O gol de Ghiggia, na final da Copa de 50, caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo". Com o tempo e com a goleada germânica em 2014, a maldição será esquecida, enterrada de vez, e assim, Barbosa descansará em paz onde quer que esteja.

"São apenas detalhes do futebol"

Fontes e referências:

UOL.com.br

ESPN.com.br

ESPN Films

terceirotempo.bol.uol.com.br

Globo.com


Documentário - ESPN Films: Barbosa; el hombre que hizo llorar a Brasil:






Uruguai x Brasil - Final da Copa de 1950 no Brasil: