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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A chave para o sucesso do tiki-taka



De 2008 a 2012, uma seleção reinou no mundo do futebol. Muitas vezes apontada como uma das favoritas em competições anteriores, a Espanha costumava derrapar na "hora H". Para entender o coroamento da Fúria, é preciso conhecer o mecanismo que abria os cadeados adversários. Vamos aos detalhes do futebol.


Em 2006, na Copa do Mundo da Alemanha, os espanhóis foram eliminados pela França, nas oitavas de final, e mais uma vez a Fúria levou a fama de "amarelona". Para entender o contexto, é necessário lembrar que o Barcelona era o atual campeão da temporada da Liga dos Campeões 2005-2006, porém, poucos jogadores espanhóis defendiam a seleção. Ronaldinho, Eto’o, Giuly e Deco faziam a diferença na comitiva de frente. Os ibéricos Puyol, Xavi e o jovem Iniesta defendiam Barça e a Fúria, mas sem o protagonismo. Apenas o zagueiro era titular absoluto. Mesmo assim, a seleção espanhola não engrenava em relação ao time da Catalunha. Qual a explicação? A chave não estava preparada, estava em teste, sendo moldada.

O “surgimento” de Xavi Hernández


Em 2008, o meio-campista de passes perfeitos ganhou a confiança do então técnico da Espanha, Luis Aragonés e liderou a seleção ao título europeu. Lembro como se fosse hoje, passeando por um shopping da capital goiana quando decidi parar alguns minutos em frente uma loja de aparelhos eletrônicos que transmitia a final. “Desculpe-me namorada, mas vamos ver esse finalzinho de partida”. E assistimos Fernando Torres encobrir o goleiro alemão para definir o jogo ainda no primeiro tempo. A redenção estava concretizada. A Espanha sobrou em campo e até poderia ter ganhado por um placar mais elástico. Com o resultado, a seleção espanhola liderou o ranking da Fifa pela primeira vez na história. A Fúria foi coroada de forma invicta e de quebra, Xavi foi eleito o melhor jogador da competição. 

Visualizando um gênio 


O comandante espanhol Luis Aragonés percebeu o que ninguém notava. Aquele baixinho sem força física de 1,70m, sem dribles desconcertantes, poderia sim mudar o rumo do futebol mundial com outras características. Xavi era o maestro da Espanha e um dos melhores jogadores do mundo. Talvez, se não fosse da mesma geração de Ronaldinho, Messi e Cristiano Ronaldo, ele teria se tornado o melhor do mundo da bola. Como explicar tamanha mudança, um atleta que nem sempre era titular do Barcelona a cérebro do futebol mais lindo da época? O próprio Xavi responde: “No pessoal, Luis me fez sentir importante quando a minha autoestima era um desastre. Me deu o comando da seleção quando eu não tinha nem o Barça. 'Aqui manda você', me disse. 'E que critiquem a mim'. Decidi devolver a confiança que ele me deu em campo. Se fui eleito o melhor jogador da Eurocopa foi por causa dele, mesmo que ele sempre negasse. Comigo ele teve detalhes inesquecíveis. Aragonés foi fundamental na minha carreira e na história da seleção. Sem ele, nada teria sido o mesmo, impossível", relata Xavi em carta publicada no jornal espanhol "El País".

Dê confiança e terás um futuro incrível


Foi assim que o novo técnico do Barcelona pensou. Em 2008, o ex-jogador e companheiro de Xavi era jovem e promissor, um tal de Pep Guardiola. Ele utilizou jogadores formados na base do time, deu moral às estrelas formadas em casa e contratou peças importantes. Essas escolhas foram um divisor de águas na história do Barça. Na estreia como treinador, Pep pensou como Aragonés, acreditou em Xavi, no criador do tiki-taka, o aperfeiçoou e colheu os frutos: títulos e reconhecimentos. Bicampeão do Mundial de Clubes da Fifa (2009 e 2011), Bicampeão da Liga dos Campeões da UEFA (2008-2009 e 2010-2011), Bicampeão da Supercopa da UEFA (2009 e 2011), Tricampeão Espanhol (2008-2009, 2009-2010 e 2010-2011), Bicampeão da Copa do Rei (2008-2009 e 2011-2012), Tricampeão da Supercopa da Espanha (2009, 2010 e 2011). Além das conquistas, esse Barça dos sonhos conseguiu jogar bonito e encantar plateias com o futebol arte, algo raro no futebol modernizado. Sem dúvida, era o melhor time do mundo. Guardiola provara seu potencial à frente do clube catalão. Parecia uma tarefa simples, Xavi organizava a casa com um estilo único no meio de campo ao lado de Iniesta e Messi executava o trabalho. Com esse conjunto, o Barcelona sobrou no velho continente.


Voltemos à seleção: o apagão da Fúria


Em 2009, a derrota inusitada para os Estados Unidos na Copa das Confederações tirou a incrível sequência de 35 jogos consecutivos sem perder. Coube ao Brasil derrotar os Yankees na decisão. A Fúria ficou apenas com o terceiro. Mas o revés não seria problema para o próximo ano.

Queremos conquistar el mundo


Em 2010, na Copa do Mundo da África, a Espanha chegava como favorita, mesmo com revés na Copa das Confederações. Afinal, era a atual campeã europeia. Com uma seleção recheada de atletas do Barcelona e Real Madrid em ótimas fases, a chance de título mundial era possível. Mas como estaria o cérebro dessa Espanha? Estava muito bem, talvez no ápice da carreira. Xavi tinha exatos 30 anos quando a bola rolou no continente africano, a idade não pesava para Xavi. Velocidade e força física nunca foram o forte do jogador. Sua visão, compreensão da partida e técnica refinada fariam a diferença na competição. Nesta Copa, Xavi deu 563 passes, líder absoluto no quesito. Não deu outra, Espanha campeã mundial. Dois anos depois, a Fúria novamente ganhou a Eurocopa. Não tinha pra ninguém. Era a consagração dessa geração, de um estilo de jogo denominado Tiki-Taka. O maestro da orquestra tinha nome e sobrenome, Xavi Hernández. 


Fechando com ‘‘Xavi’’ de ouro

Depois de participar da vitória por 3 a 1 sobre a Juventus, em Berlim e conquistar a Uefa Champions League pela quarta vez na carreira. O volante de 35 anos deixou o clube no qual atuava profissionalmente desde 1998 e foi para Al Sadd, do Catar. Lá, ele jogará no clube asiático e vai se tornar embaixador para a Copa do Mundo de 2022, no Catar. Após a final, Xavi deixou uma mensagem: "Acabar assim é insuperável. Não há palavras, não posso pedir mais. Sair desta maneira, conseguindo uma Champions e uma Tríplice Coroa, é espetacular. Merecemos", declarou o volante à emissora de televisão Canal Plus. "Eu sinto um pouco de nostalgia, ao saber que não vou voltar a jogar mais por esta equipe. Mas realmente estou muito feliz por como foi minha carreira. Este final é incrível."

O legado

Mesmo com o fracasso e com a morte do tiki-taka na Copa do Brasil, em 2014, a Espanha e o Barcelona de Xavi vão estar na história e jamais serão esquecidos. O jeito de jogar, encantar e ganhar é a herança que esses times deixam para os amantes do mundo da bola. Nada disso teria acontecido sem a chave do sucesso: Xavi, o próprio Tiki-Taka.


"São apenas detalhes do futebol"


Confira o vídeo do maestro Xavi em ação pelo Barcelona e  seleção espanhola:




E uma homenagem ao eterno camisa 6 do Barça: